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Dos ‘bidonvilles’ ao voto no ódio

Antes de apontarmos o dedo a quem chega sem documentos, talvez devêssemos recordar quantos dos nossos também partiram assim: com medo, sem estudos, sem papéis e apenas com a esperança de que alguém, do outro lado, lhes desse uma oportunidade.

Na minha aldeia, a emigração não foi uma palavra abstrata, nem um tema de estatística. Foi uma ausência que se instalou nas casas, nas mesas e nas ruas. Nos anos sessenta, primeiro partiram os homens. Saíam com pouco mais do que uma mala, alguns contactos incertos e a promessa de que, do outro lado da fronteira, haveria trabalho e futuro. Depois foram as mulheres, muitas vezes para se juntarem aos maridos, para trabalhar, para cuidar dos filhos dos outros deixando para trás, muitas vezes, os seus. Só depois chegaram as crianças, arrancadas à aldeia, aos avós, à escola e à língua que conheciam.

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